...quando aterrou no leito dele. Cheirou a um regresso a partes dela que já tinham partido há algum tempo. Há muito tempo.
Aonde está ele?
A casa ainda cheirava à colónia que borrifava todas as manhãs antes de sair porta fora para a rotina diária. À noite tinha o costume de deixar as chaves da casa ao lado dos perfumes para não se esquecer deles antes de sair.
Mas,naquela tarde, o odor desenhava um percurso que se repetia do quarto até à sala e da sala até ao quarto até terminar na porta de saída.
Maria estranhou o desenho...tinha em si a sensação fria de que aquele percurso tinha sido trapalhão.
A colónia fazia dançar pela casa uma melodia que Maria mal conseguia ouvir. Com calma, e tentando esquecer o que o seu sexto sentido lhe gritava, foi desfazendo as malas.
Ao abrir a primeira gaveta, espantou-se ao ver que estava vazia. Então abriu outra, e outra, e outra... e as portas do roupeiro...
Vazio!
Estava tudo vazio!
Mas aonde está ele? - repetia.
O quarto despido começou a parecer cada vez mais pequeno e Maria sentiu-se a ser engolida pela vida.
Faltava-lhe o ar e o espaço.
As pernas tremiam sem forças e o estômago dava nós sobre si mesmo. Acabou por se deixar cair até ficar sentada no chão!
Quando, finalmente, ouviu o que lhe era gritado, o seu coração apertado explodiu em forma de pontada forte no peito.
Pelos olhos jorrou um mar salgado em fúria e pela boca o silêncio de dois lábios que se apertaram demais para nada deixarem sair. Pelos ouvidos entrava a bom som a melodia que continuava a ser tocada.
E a colónia bailava...
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
E eu sei...
E eu sei que não te quero! E eu digo a mim mesma, vezes e vezes sem conta, que não és tu.
E eu fecho e encerro e escondo...e eu fujo de ti, não sabias?
E é o teu toque que me engana! Que me segura no momento. Que paralisa cada célula do meu corpo que já estava de partida.
Enquanto os toques se multiplicam, se geram e reproduzem, eu estou ali...
E é a vontade de sentir o que há muito já não sinto que me agonia. Porque quando as nossas mãos se desencontram, e nenhuma parte do meu corpo repousa no teu, o que eu sinto é que pouco senti.
E o teu olhar sorridente corta-me de fininho...
Corro para mim mesma, quão depressa consigo, baralho as passadas e desço por mim aos trambolhões. Quando paro, engulo a lágrima que ameaça rebentar e respiro de alívio por estar sozinha.
E é frustrante!! E é irónico. Assim que me levanto e recomponho, assombra-me o pensamento, e a alma, a vontade de regressar a ti.
E eu já não sei o que é. E já me cansa tentar perceber...
E eu fecho e encerro e escondo...e correndo para ti, eu fujo de mim!
E eu fecho e encerro e escondo...e eu fujo de ti, não sabias?
E é o teu toque que me engana! Que me segura no momento. Que paralisa cada célula do meu corpo que já estava de partida.
Enquanto os toques se multiplicam, se geram e reproduzem, eu estou ali...
E é a vontade de sentir o que há muito já não sinto que me agonia. Porque quando as nossas mãos se desencontram, e nenhuma parte do meu corpo repousa no teu, o que eu sinto é que pouco senti.
E o teu olhar sorridente corta-me de fininho...
Corro para mim mesma, quão depressa consigo, baralho as passadas e desço por mim aos trambolhões. Quando paro, engulo a lágrima que ameaça rebentar e respiro de alívio por estar sozinha.
E é frustrante!! E é irónico. Assim que me levanto e recomponho, assombra-me o pensamento, e a alma, a vontade de regressar a ti.
E eu já não sei o que é. E já me cansa tentar perceber...
E eu fecho e encerro e escondo...e correndo para ti, eu fujo de mim!
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
A neve...
A neve precipitou-se para o cume daquela montanha sorrateira e suavemente. Quando olhei a paisagem já o branco se tinha apoderado das outras cores. Gelou! A vida que ali se sentia pairava no tempo, como quem, hirto e imóvel, vê os barcos passarem!
Eu olhava para aquele manto pesado, que num breve desvio do meu olhar e da minha atenção se tinha depositado, e na minha cabeça, ensurdecendo a minha mente, a minha voz não se calava. Farta de ouvir as mesmas lengalengas que desde há muito, já nem me lembro desde quando, conto a mim mesma, virei costas àquela vida estagnada e deixei que deste outro lado, para onde agora olhava, a vida fosse suficiente para apagar o que atrás de mim, hirto e imóvel, se levantava.
Suficiente nunca foi, pelo menos para quem me visitou! O que à minha frente se oferecia não chegava, era pouco.
E mentia a mim mesma, aquela voz que não se calava repetia que eu queria isso...pouco ou nada!
Eu olhava para aquele manto pesado, que num breve desvio do meu olhar e da minha atenção se tinha depositado, e na minha cabeça, ensurdecendo a minha mente, a minha voz não se calava. Farta de ouvir as mesmas lengalengas que desde há muito, já nem me lembro desde quando, conto a mim mesma, virei costas àquela vida estagnada e deixei que deste outro lado, para onde agora olhava, a vida fosse suficiente para apagar o que atrás de mim, hirto e imóvel, se levantava.
Suficiente nunca foi, pelo menos para quem me visitou! O que à minha frente se oferecia não chegava, era pouco.
E mentia a mim mesma, aquela voz que não se calava repetia que eu queria isso...pouco ou nada!
terça-feira, 24 de maio de 2011
O mar revoltava-se...
...ao longe como tropa de uma guerra sem inimigo. As ondas que me chegavam aos pés, de tanta raiva que tinham na força, obrigavam-me a passo e meio na direcção que seguiam. A brisa intensa envolvia os meus cabelos numa dança tribal e a vontade de entrar nesse remoínho de forças despertou em mim. Vi nesse mar todas as lágrimas que não tenho deixado sair...estremeceu o meu peito com a marcha desses soldados, estremeci eu...
estremeceu a minha Alma com esse passo agitado...era mais forte do que eu.
Mais passo e meio e a guerra agarrou-me pela cintura. Relembrou-me do teu abraço...que me segurava sempre que algo em mim fugia; a força, a vontade...a alegria! Mas este abraço queria-me levar, queria que eu não resistisse...levava consigo a areia onde os meus pés se enterravam, queria-me ver tombar.
O palpitar do meu peito também me empurrava para a frente...e o turbilhão já quase não me deixava respirar.
Cedo cedi à emoção... e escorreu-me pelos olhos a outra metade desse mar.
estremeceu a minha Alma com esse passo agitado...era mais forte do que eu.
Mais passo e meio e a guerra agarrou-me pela cintura. Relembrou-me do teu abraço...que me segurava sempre que algo em mim fugia; a força, a vontade...a alegria! Mas este abraço queria-me levar, queria que eu não resistisse...levava consigo a areia onde os meus pés se enterravam, queria-me ver tombar.
O palpitar do meu peito também me empurrava para a frente...e o turbilhão já quase não me deixava respirar.
Cedo cedi à emoção... e escorreu-me pelos olhos a outra metade desse mar.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Pela Janela...
...escorria a chuva daquele dia de Inverno. A par e passo com as suas lágrimas,desfocava a paisagem. Não sendo a paisagem o que ele via naquele momento, o cenário esbatido calhava bem.
A nostalgia passava-lhe imagens passadas como um grande projector...fotografias e películas de momentos arquivados...ou talvez não!
Segurava a chávena de chá fria sentado na cadeira de baloiço; já estava naquele cliché há algumas horas.
Quando acordou de manhã soube que o dia seria assim. Faltaram-lhe as forças para sair da cama e rendeu-se a mais algumas horas de sono forçado. Já não luta contra a maré! Arrastou-se da cama já a meio do dia, virou a cadeira para a janela, enrolou-se numa manta, meteu a água a ferver e deixou o dia frio e cinzento fazer o resto!
Não é conformista, não tem pena de si mesmo e não está irremediavelmente deprimido! Não sente prazer na dor e no sofrimento, não está preso à melancolia! Faz tudo o que está ao seu alcance para que o dia o empurre tão para baixo quanto possível. Não luta, deixa-se escorregar pelas imagens projectadas para dentro de si.
Não está irremediavelmente deprimido...quer bater no fundo, chorar até secar...porque amanhã já não vai ser assim!
A nostalgia passava-lhe imagens passadas como um grande projector...fotografias e películas de momentos arquivados...ou talvez não!
Segurava a chávena de chá fria sentado na cadeira de baloiço; já estava naquele cliché há algumas horas.
Quando acordou de manhã soube que o dia seria assim. Faltaram-lhe as forças para sair da cama e rendeu-se a mais algumas horas de sono forçado. Já não luta contra a maré! Arrastou-se da cama já a meio do dia, virou a cadeira para a janela, enrolou-se numa manta, meteu a água a ferver e deixou o dia frio e cinzento fazer o resto!
Não é conformista, não tem pena de si mesmo e não está irremediavelmente deprimido! Não sente prazer na dor e no sofrimento, não está preso à melancolia! Faz tudo o que está ao seu alcance para que o dia o empurre tão para baixo quanto possível. Não luta, deixa-se escorregar pelas imagens projectadas para dentro de si.
Não está irremediavelmente deprimido...quer bater no fundo, chorar até secar...porque amanhã já não vai ser assim!
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Palavras para quê...
Já não as tens! Procuraste ao longo destes anos, dentro de ti, por todos os sentimentos que conseguias transformar em nomes; esgotaste os arredores do coração e acabaste por rompê-lo com a força da urgência. Querias palavras que levassem com elas um bocado de ti.
O seu ar sereno sempre denunciou o teu insucesso. Se por dentro o teu coração rompia, caiu apenas dentro de ti o que nele se agitava!
As palavras com que ele te agarrava não coadunavam com o seu abraço! E quando os abraços se foram esquecendo...as palavras nunca mais se lembraram de ti!
Na esperança de que ele fosse tão alienado quanto alguém pode ser, convenceste-te de que talvez nem todos soubessem amar!
Quem te via nessa busca interminável não percebia a que parte da tua tamanha fraqueza ias buscar tanta força!
Ninguém nunca soube amar como tu!
O seu ar sereno sempre denunciou o teu insucesso. Se por dentro o teu coração rompia, caiu apenas dentro de ti o que nele se agitava!
As palavras com que ele te agarrava não coadunavam com o seu abraço! E quando os abraços se foram esquecendo...as palavras nunca mais se lembraram de ti!
Na esperança de que ele fosse tão alienado quanto alguém pode ser, convenceste-te de que talvez nem todos soubessem amar!
Quem te via nessa busca interminável não percebia a que parte da tua tamanha fraqueza ias buscar tanta força!
Ninguém nunca soube amar como tu!
domingo, 18 de julho de 2010
The meaning of life!
What is the meaning of life?
"Every day that goes by, you know more than before. Your eyes open wider and you know more. You won't wake up today as you went to sleep last night. That's what life is for."
Adorei!!!!
www.6billionothers.org
"Every day that goes by, you know more than before. Your eyes open wider and you know more. You won't wake up today as you went to sleep last night. That's what life is for."
Adorei!!!!
www.6billionothers.org
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Agora..
...que te vês sozinho nessa casa que parece crescer a cada dia que passa, sentes que és mais vazio do que pensavas ser! Quiseste libertar-te de tanto e agora vês-te preso a tão pouco...
Sabias da paixão pela vida que tinhas dentro de ti e que ela não sabia acompanhar, e achaste que sozinho corrias mais rápido por aquele campo de relva.
Mas esta noite adormeceste nessa corrida, ao som da música que te acelerava o metabolismo, e o sono profundo meteu alguém ao pé de ti. Sonhaste de mãos-dadas com quem não conheces mas que tens a certeza de já estar algures por aí.
Revoltou-te seres traído pelo sonho. Revoltaram-te as chapadas de luva branca que o teu inconsciente escondeu de ti.
A manhã solarenga revelou-te uma cama que ainda tinha espaço para mais um, e o sonho ainda fresco tirou-te as forças até aí acumuladas. A vontade de deixar cair nos lençóis as lágrimas que sabias ter dentro de ti fez-te permanecer caído de olhar fixo no nada por dois ou três minutos. Porque não aceitaste o vazio que tens dentro de ti, levantaste-te, engoliste em seco o nó que te pesou no estômago, debruçaste-te sobre a mobília e forçaste um sorriso para te cumprimentares ao espelho...
...partiste sozinho para o campo de relva, num andar cansado, como quem foi arrastado de novo para o ponto de partida, mas consciente da força que ainda havia em ti!
Sabias da paixão pela vida que tinhas dentro de ti e que ela não sabia acompanhar, e achaste que sozinho corrias mais rápido por aquele campo de relva.
Mas esta noite adormeceste nessa corrida, ao som da música que te acelerava o metabolismo, e o sono profundo meteu alguém ao pé de ti. Sonhaste de mãos-dadas com quem não conheces mas que tens a certeza de já estar algures por aí.
Revoltou-te seres traído pelo sonho. Revoltaram-te as chapadas de luva branca que o teu inconsciente escondeu de ti.
A manhã solarenga revelou-te uma cama que ainda tinha espaço para mais um, e o sonho ainda fresco tirou-te as forças até aí acumuladas. A vontade de deixar cair nos lençóis as lágrimas que sabias ter dentro de ti fez-te permanecer caído de olhar fixo no nada por dois ou três minutos. Porque não aceitaste o vazio que tens dentro de ti, levantaste-te, engoliste em seco o nó que te pesou no estômago, debruçaste-te sobre a mobília e forçaste um sorriso para te cumprimentares ao espelho...
...partiste sozinho para o campo de relva, num andar cansado, como quem foi arrastado de novo para o ponto de partida, mas consciente da força que ainda havia em ti!
terça-feira, 22 de junho de 2010
quinta-feira, 10 de junho de 2010
quinta-feira, 20 de maio de 2010
A meio de um passo longo para além...
Transformaste aquele momento numa fotografia. Ela ficou de costas a meio de um passo longo para além. De cabelos e saia comprida e branca ao vento, ela ainda olhava para trás.
Notaste no olhar dela o brilho da despedida e no canto do seu sorriso triste mil palavras para ti. Doeu-te o corte fino da irreversibilidade do tempo. Pensaste no caminho que vos levara ali e revoltou-te não saberes que por aquele desvio por onde seguiram...vinham dar aqui!
Nesse impasse tremido, de quem se deixa escorregar pelo nada até ao chão, não conseguiste parar o curso de água salgada que te desceu pela alma.
Ela era agora uma fotografia de tons antigos tirada por ti.
Lembras-te bem deste momento que te tornou a respiração mais curta. E depois de tanto tempo assusta-te saberes que ela permanece no fim daquele trilho de terra fria...e que tu ainda estás ali!
Notaste no olhar dela o brilho da despedida e no canto do seu sorriso triste mil palavras para ti. Doeu-te o corte fino da irreversibilidade do tempo. Pensaste no caminho que vos levara ali e revoltou-te não saberes que por aquele desvio por onde seguiram...vinham dar aqui!
Nesse impasse tremido, de quem se deixa escorregar pelo nada até ao chão, não conseguiste parar o curso de água salgada que te desceu pela alma.
Ela era agora uma fotografia de tons antigos tirada por ti.
Lembras-te bem deste momento que te tornou a respiração mais curta. E depois de tanto tempo assusta-te saberes que ela permanece no fim daquele trilho de terra fria...e que tu ainda estás ali!
terça-feira, 11 de maio de 2010
No hall da entrada...
Não é fácil dissertar sobre partes e contra-partes que vivem no nosso aquário, aquele que assenta na mesinha de madeira no hall da entrada; a peça de mobília que está lá há mais tempo que nós porque lembramo-nos de vê-la lá desde que nos conhecemos… tem um cheiro antigo e pó no verniz. A esse cantinho nostálgico, que enraizou desde sempre nessa calma, não é fácil chegar!
Sei que passo todos os dias por ele, que quando abro a porta da entrada, ainda de compras e correio na mão, é a primeira coisa que me recebe! É lá que sempre pouso as chaves, de modo esquecido e levantando pó e lascas…
O aquário não tem peixes mas a água estagnada de um verde translúcido parece esconder alguma vida. Faz-me lembrar os sonhos ou aquelas memórias distantes que já não se mostram com clareza…
Às vezes, quando venho menos carregada, pouso o saco de congelados no chão e, depois de largar as chaves, fixo o aquário de cócoras e mergulho um dedo naquela água. Como se fosse o peixe que não existe, sinto toda aquela melancolia estagnada a dificultar-me a respiração. Neste nadar inerte permaneço mais tempo do que sempre devia. Tiro o dedo, passo-o pelas calças de ganga, como quem não quer a coisa, e levo o saco dos “descongelados”.
Na gaveta da mesinha que o suporta guardo um rolo de papel auto-colante colorido. Tem um padrão às riscas, que alterna o vermelho com o branco. Sempre tive ideia de que um aquário de água mole e verde não agradava a muitas vistas e recortar o papel autocolante e fazê-lo coincidir com as arestas daquele paralelepípedo derrubado tornou-se uma rotina.
A senhora Olga da Papelaria “papel e canetas”, nome pouco imaginativo que sempre me despertou curiosidade, quando me vê pela vitrina sorri e acena-me com a tesoura que acabou de retirar de cima do balcão.
- Então Joaninha, são as medidas e o rolo do costume?
Ela deve-me achar estranha. O seu sorriso condescendente e materno dá-me sempre ideia de que ela tem pena de mim. Talvez me ache uma rapariga solitária que se prendeu a um ritual rígido para não pensar na solidão! Esta ideia distorcida de quem recalcou a sua melancolia e a reconhece como tristeza nos outros deixa-me sempre angustiada.
Houve um dia em que me chegou a perguntar:
- Joaninha, filha, diz-me uma coisa: para quê tanto papel às riscas? E sempre o mesmo?
Disse-lhe, em tom de brincadeira, que trabalhava para a editora dos livros do Wally e que a miudagem dos dias de hoje não era muito diferente das de outros tempos. Sei perfeitamente que a resposta não lhe saciou a curiosidade nem lhe diminuiu a pena, ela sorriu com esforço e entregou-me a compra. Ao sair da papelaria imaginei-a debruçada sobre o balcão a ver-me distanciar e perder-me no contorno da vitrina…imaginei o seu ar pensativo e talvez meio lábio mordido!
Sei bem que ela compra tanto papel às riscas quanto eu! E sei também que, quando estamos de costas voltadas uma para a outra, ela pensa no meu aquário verde que não conhece e eu penso nos seus olhos tristes que não se apagam com o seu sorriso nem se perdem no pensamento...
Fascina-me o facto de termos todos um aquário velho perdido no canto da casa sobre uma mesinha de madeira descascada; aproxima-nos como seres humanos.
É bonito pensar que todos nós paramos num momento do dia de cócoras em frente a um aquário sem peixes. Que todos mergulhamos um dedo numa água suja que não nos repugna, pelo contrário, preenche-nos…
E continuamos a forrá-lo mesmo sabendo que já todos aprendemos a reconhecer o verde da água que desbotou para o dedo e que não ficou nas calças de ganga!
Sei que passo todos os dias por ele, que quando abro a porta da entrada, ainda de compras e correio na mão, é a primeira coisa que me recebe! É lá que sempre pouso as chaves, de modo esquecido e levantando pó e lascas…
O aquário não tem peixes mas a água estagnada de um verde translúcido parece esconder alguma vida. Faz-me lembrar os sonhos ou aquelas memórias distantes que já não se mostram com clareza…
Às vezes, quando venho menos carregada, pouso o saco de congelados no chão e, depois de largar as chaves, fixo o aquário de cócoras e mergulho um dedo naquela água. Como se fosse o peixe que não existe, sinto toda aquela melancolia estagnada a dificultar-me a respiração. Neste nadar inerte permaneço mais tempo do que sempre devia. Tiro o dedo, passo-o pelas calças de ganga, como quem não quer a coisa, e levo o saco dos “descongelados”.
Na gaveta da mesinha que o suporta guardo um rolo de papel auto-colante colorido. Tem um padrão às riscas, que alterna o vermelho com o branco. Sempre tive ideia de que um aquário de água mole e verde não agradava a muitas vistas e recortar o papel autocolante e fazê-lo coincidir com as arestas daquele paralelepípedo derrubado tornou-se uma rotina.
A senhora Olga da Papelaria “papel e canetas”, nome pouco imaginativo que sempre me despertou curiosidade, quando me vê pela vitrina sorri e acena-me com a tesoura que acabou de retirar de cima do balcão.
- Então Joaninha, são as medidas e o rolo do costume?
Ela deve-me achar estranha. O seu sorriso condescendente e materno dá-me sempre ideia de que ela tem pena de mim. Talvez me ache uma rapariga solitária que se prendeu a um ritual rígido para não pensar na solidão! Esta ideia distorcida de quem recalcou a sua melancolia e a reconhece como tristeza nos outros deixa-me sempre angustiada.
Houve um dia em que me chegou a perguntar:
- Joaninha, filha, diz-me uma coisa: para quê tanto papel às riscas? E sempre o mesmo?
Disse-lhe, em tom de brincadeira, que trabalhava para a editora dos livros do Wally e que a miudagem dos dias de hoje não era muito diferente das de outros tempos. Sei perfeitamente que a resposta não lhe saciou a curiosidade nem lhe diminuiu a pena, ela sorriu com esforço e entregou-me a compra. Ao sair da papelaria imaginei-a debruçada sobre o balcão a ver-me distanciar e perder-me no contorno da vitrina…imaginei o seu ar pensativo e talvez meio lábio mordido!
Sei bem que ela compra tanto papel às riscas quanto eu! E sei também que, quando estamos de costas voltadas uma para a outra, ela pensa no meu aquário verde que não conhece e eu penso nos seus olhos tristes que não se apagam com o seu sorriso nem se perdem no pensamento...
Fascina-me o facto de termos todos um aquário velho perdido no canto da casa sobre uma mesinha de madeira descascada; aproxima-nos como seres humanos.
É bonito pensar que todos nós paramos num momento do dia de cócoras em frente a um aquário sem peixes. Que todos mergulhamos um dedo numa água suja que não nos repugna, pelo contrário, preenche-nos…
E continuamos a forrá-lo mesmo sabendo que já todos aprendemos a reconhecer o verde da água que desbotou para o dedo e que não ficou nas calças de ganga!
sábado, 8 de maio de 2010
Hapiness hit her like a train on a track...
"And I never wanted anything from you
Except everything you had
And what was left after that too"
Except everything you had
And what was left after that too"
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Ao som de...B Fachada.
Por cá também se faz boa música!
"Viveu sempre sossegado
Cada amor em cada lado
Mas ele mesmo até morrer
Vá-se lá saber
O que sentia todo o dia, até anoitecer"
"Viveu sempre sossegado
Cada amor em cada lado
Mas ele mesmo até morrer
Vá-se lá saber
O que sentia todo o dia, até anoitecer"
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Gosto!
Gosto das minhas gargalhadas sinceras! São aquelas que parecem sair da minha parte mais funda! Duram pouco mas são descaradas e inoportunas...
Gosto de ter de almoçar à frente de uma pessoa estranha e perceber a complexidade da bolha em que cada um vive.
Gosto do olhar nostálgico dos velhotes que observam, sem ver, a miudagem que apanhou o mesmo autocarro. Sei que também vou ser assim...
Gosto de me meter com uma criança e, esperando um sorriso ou um adeus atrapalhado, receber uma "língua-de-fora".
Gosto de estar em sítios onde o silêncio é obrigatório e lembrar-me da anedota que me contaram sem conseguir controlar o riso!
Gosto de me cruzar com um(a) desconhecido(a) e desviar-me três vezes para o mesmo lado que ele(a) até conseguir seguir em frente.
Gosto de perguntar a uma senhora "não me vais ajudar a escolher a porcaria das pêras?" por pensar que era a minha amiga que estava ali ao lado!
Gosto de tudo aquilo que me desarma...
Gosto de ter de almoçar à frente de uma pessoa estranha e perceber a complexidade da bolha em que cada um vive.
Gosto do olhar nostálgico dos velhotes que observam, sem ver, a miudagem que apanhou o mesmo autocarro. Sei que também vou ser assim...
Gosto de me meter com uma criança e, esperando um sorriso ou um adeus atrapalhado, receber uma "língua-de-fora".
Gosto de estar em sítios onde o silêncio é obrigatório e lembrar-me da anedota que me contaram sem conseguir controlar o riso!
Gosto de me cruzar com um(a) desconhecido(a) e desviar-me três vezes para o mesmo lado que ele(a) até conseguir seguir em frente.
Gosto de perguntar a uma senhora "não me vais ajudar a escolher a porcaria das pêras?" por pensar que era a minha amiga que estava ali ao lado!
Gosto de tudo aquilo que me desarma...
sexta-feira, 16 de abril de 2010
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Ao som de...Edward Sharpe & The Magnetic Zeros
Amiga,
sabes quando tudo à tua volta se embeleza sem tu perceberes o que mudou?
Seguravas a "Mini" com o pôr-do-sol por trás de ti. Em contra luz, só o teu sorriso extra longo e branqueado, como o arroz, se distinguia.
Em saltos descoordenados, via-te aparecer e desaparecer do meu horizonte...um alternar entre ti e aquele céu pintado. Os teus cabelos ondulavam em tons laranja ao ritmo da música que nos fez saltar...
...foi esta!
Him: Jade
Her: Alexander
Him: Do you remember that day you fell outta my window?
Her: I sure do, you came jumping out after me.
Him: Well, you fell on the concrete, nearly broke your ass, you were bleeding all over
place and I rushed you out to the hospital, you remember that?
Her: Yes I do.
Him: Well there's something I never told you about that night.
Her: What didn't you tell me?
Him: While you were sitting in the backseat smoking a cigarette you thought was gonna be your
last, I was falling deep, deeply in love with you, and I never told you til just now.
sabes quando tudo à tua volta se embeleza sem tu perceberes o que mudou?
Seguravas a "Mini" com o pôr-do-sol por trás de ti. Em contra luz, só o teu sorriso extra longo e branqueado, como o arroz, se distinguia.
Em saltos descoordenados, via-te aparecer e desaparecer do meu horizonte...um alternar entre ti e aquele céu pintado. Os teus cabelos ondulavam em tons laranja ao ritmo da música que nos fez saltar...
...foi esta!
Him: Jade
Her: Alexander
Him: Do you remember that day you fell outta my window?
Her: I sure do, you came jumping out after me.
Him: Well, you fell on the concrete, nearly broke your ass, you were bleeding all over
place and I rushed you out to the hospital, you remember that?
Her: Yes I do.
Him: Well there's something I never told you about that night.
Her: What didn't you tell me?
Him: While you were sitting in the backseat smoking a cigarette you thought was gonna be your
last, I was falling deep, deeply in love with you, and I never told you til just now.
terça-feira, 30 de março de 2010
Subscrever:
Mensagens (Atom)
